Revista Ciência
Hoje/SP O
‘Gosto Amargo’ do Leite Vera Rita da
Costa O alerta para os aspectos
negativos decorrentes da ingestão de leite é da médica Adriana Sevá-Pereira,
da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Segundo estimativas levantadas por ela, a deficiência de lactase
ocorreria em 58 milhões de brasileiros adultos (maiores de 15 anos). Em
decorrência disso, 37 milhões de pessoas apresentariam intolerância ao leite e
estariam sujeitas a sintomas desagradáveis ao tomarem um simples copo da
bebida. A maioria das populações, explica Adriana
Sevá-Pereira, é composta por pessoas que manifestam perda progressiva da
lactase intestinal após o desmame, condição conhecida por deficiência de
lactase do adulto ou malabsorção de lactose do adulto (MLA). Em
conseqüência da falta da enzima lactase, essas pessoas perdem a capacidade de
digerir e absorver o açúcar do leite (lactose), podendo apresentar sintomas
digestivos de gravidade variável após a ingestão do leite. Nos Estados Unidos,
o número de pessoas intolerantes à lactose é estimado entre 30 e 50 milhões,
números suficientes para que as autoridades locais começassem a alertar a
população para o fato. No Brasil, ainda não há iniciativas nesse
sentido. Para fazer a estimativa do número de
brasileiros que não tolerariam leite, Adriana Sevá-Pereira utilizou dados de
pesquisas anteriores, também realizadas na Unicamp, que demonstram a
ocorrência da deficiência de lactase nas populações das diferentes regiões
brasileiras e os níveis de intolerância ao leite apresentados por portadores
dessa condição genética. O estímulo para as pesquisas e os cálculos, conta a
médica, surgiu de sua própria prática ambulatorial: em mais de 20 anos de
atendimento, ela verificou grande quantidade de pacientes com sintomatologia
digestiva, até mesmo grave, devida somente à intolerância ao leite. “Os
sintomas informa Adriana -- são principalmente diarréia e dor abdominal,
às vezes graves a ponto de os pacientes passarem por vários médicos, sem
serem, no entanto, diagnosticados corretamente.” Em
vista da alta freqüência da malabsorção da lactose na maioria das populações
humanas, dos dados de prevalência encontrados nas regiões do país e das
estimativas para a população brasileira, Adriana Sevá-Pereira defende que “a
sociedade deva, no mínimo, ser avisada de que o leite pode provocar sintomas
desagradáveis”. Ela questiona, ainda, a validade de programas nutricionais em
que o leite é dado como suplemento dietético principal: “em regiões tropicais,
em que as populações desnutridas estão sujeitas a infecções intestinais, a
intolerância ao leite pode estar agravando ainda mais a situação, pois o
efeito simultâneo da desnutrição e das infecções intestinais, pode resultar em
deficiência secundária de lactase, aumentando ainda mais o número de pessoas
com intolerância à lactose”. Como alternativa, Adriana
Sevá-Pereira propõe que o leite integral seja substituído por leite com baixo
teor de lactose, em que o açúcar tenha sido previamente hidrolisado por
lactase. Outra alternativa, diz ela, seria substituir o leite por queijo ou
manteiga, que possuem pouca lactose (menos do que 0,2%) e apresentam o mesmo
valor nutritivo em proteínas e gorduras.
CH no. 152 - Agosto 1999.
NUTRIÇÃO:
Deficiência de enzima que digere a lactose provoca intolerância à bebida em
37 milhões de brasileiros adultos
Ao
contrário do que apregoam a indústria de laticínios e os programas
governamentais de combate à desnutrição, a ingestão diária de leite pode
causar perturbações digestivas em milhões de brasileiros. A intolerância ao
leite, cujas conseqüências podem variar de simples mal-estar até o impedimento
das atividades normais do indivíduo, é provocada pela deficiência de lactase
no adulto, uma condição determinada geneticamente e de prevalência
significativa no Brasil.