Revista Ciência Hoje/SP       
CH no. 152  -  Agosto 1999.
 

        O ‘Gosto Amargo’ do Leite     
NUTRIÇÃO:
Deficiência de enzima que digere a lactose provoca intolerância à bebida em 37 milhões de brasileiros adultos

 Vera Rita da Costa
   

Ao contrário do que apregoam a indústria de laticínios e os programas governamentais de combate à desnutrição, a ingestão diária de leite pode causar perturbações digestivas em milhões de brasileiros. A intolerância ao leite, cujas conseqüências podem variar de simples mal-estar até o impedimento das atividades normais do indivíduo, é provocada pela deficiência de lactase no adulto, uma condição determinada geneticamente e de prevalência significativa no Brasil.

O alerta para os aspectos negativos decorrentes da ingestão de leite é da médica Adriana Sevá-Pereira, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo estimativas levantadas por ela, a deficiência de lactase ocorreria em 58 milhões de brasileiros adultos (maiores de 15 anos). Em decorrência disso, 37 milhões de pessoas apresentariam intolerância ao leite e estariam sujeitas a sintomas desagradáveis ao tomarem um simples copo da bebida.

A maioria das populações, explica Adriana Sevá-Pereira, é composta por pessoas que manifestam perda progressiva da lactase intestinal após o desmame, condição conhecida por deficiência de lactase do adulto ou malabsorção de lactose do adulto (MLA).  Em conseqüência da falta da enzima lactase, essas pessoas perdem a capacidade de digerir e absorver o açúcar do leite (lactose), podendo apresentar sintomas digestivos de gravidade variável após a ingestão do leite. Nos Estados Unidos, o número de pessoas intolerantes à lactose é estimado entre 30 e 50 milhões, números suficientes para que as autoridades locais começassem a alertar a população para o fato. No Brasil, ainda não há iniciativas nesse sentido.

Para fazer a estimativa do número de brasileiros que não tolerariam leite, Adriana Sevá-Pereira utilizou dados de pesquisas anteriores, também realizadas na Unicamp, que demonstram a ocorrência da deficiência de lactase nas populações das diferentes regiões brasileiras e os níveis de intolerância ao leite apresentados por portadores dessa condição genética. O estímulo para as pesquisas e os cálculos, conta a médica, surgiu de sua própria prática ambulatorial: em mais de 20 anos de atendimento, ela verificou grande quantidade de pacientes com sintomatologia digestiva, até mesmo grave, devida somente à intolerância ao leite. “Os sintomas  informa Adriana -- são principalmente diarréia e dor abdominal, às vezes graves a ponto de os pacientes passarem por vários médicos, sem serem, no entanto, diagnosticados corretamente.”

Em vista da alta freqüência da malabsorção da lactose na maioria das populações humanas, dos dados de prevalência encontrados nas regiões do país e das estimativas para a população brasileira, Adriana Sevá-Pereira defende que “a sociedade deva, no mínimo, ser avisada de que o leite pode provocar sintomas desagradáveis”. Ela questiona, ainda, a validade de programas nutricionais em que o leite é dado como suplemento dietético principal: “em regiões tropicais, em que as populações desnutridas estão sujeitas a infecções intestinais, a intolerância ao leite pode estar agravando ainda mais a situação, pois o efeito simultâneo da desnutrição e das infecções intestinais, pode resultar em deficiência secundária de lactase, aumentando ainda mais o número de pessoas com intolerância à lactose”.

Como alternativa, Adriana Sevá-Pereira propõe que o leite integral seja substituído por leite com baixo teor de lactose, em que o açúcar tenha sido previamente hidrolisado por lactase. Outra alternativa, diz ela, seria substituir o leite por queijo ou manteiga, que possuem pouca lactose (menos do que 0,2%) e apresentam o mesmo valor nutritivo em proteínas e gorduras.