(Novembro/03)

TRANSGÊNICOS: ideologia ou ciência?

 

Luiz Eduardo Carvalho*

 

Ser contra ou a favor de transgênicos é questão ideológica. Tão ideológica que ninguém quer reconhecer isso, preferindo acusar de ideológico o argumento oponente. O próprio Presidente Lula, ator ideológico na cena brasileira, diz que não vai tomar decisões ideológicas e que, se vai liberar o plantio, é apenas por cientificamenteter sido convencido.

O milho recebe gene do Bacillus thuringiensis, passa a produzir a toxina deste e mata insetos; o salmão recebe gene de porco e, em 12 meses, seu criador já o vende com o tamanho de um salmão de 5 anos; a Escherichia coli transgênica se transforma numa usina fabricante de quimosina, a enzima que hoje coalha o queijo; e a soja RR, transgênica, se torna resistente ao herbicida Round up que, despejado na lavoura, mata as ervas daninhas, sem danificar a soja. Muitos são os transgênicos, cada um com suas finalidades, especificidades, vantagens e riscos. E é com uma bactéria transgênica que se fabrica a insulina para os diabéticos.

Se faz mal à saúde, se traz risco ao ambiente, são questões para analisar caso a caso, à luz dos experimentos. Mas não parece existir uma prova científica, ou sequer uma palavra mágica, capaz de reverter a posição de alguém. Nosso Presidente é uma exceção, mas não vale pois mudou também sobre FMI, Previdência, Salário de Servidores Públicos, Taxas de Juros, Alíquotas do IR etc

Comer ou não transgênicos é uma decisão ideológica. Fosse apenas científica e estaríamos comendo rações extrusadas, mastigando, como os cães, caroços nutricionalmente balanceados, com proteínas vegetais maximizadas em seu valor biológico, com aminoácidos, vitaminas e minerais de origem farmacêutica, além de flavorizantes e corantes para diversificar a cor, o cheiro e a textura, quebrando assim a monotonia dos tarugos padronizados.

Se a opção alimentar fosse apenas científica, e nada contivesse de ideológico, Bin Laden estaria tomando Diet Coke nas cavernas, e médicos não consumiriam uísque e chiclete anti-cárie. Se o Ministério da Saúde fosse minimamente científico, se ao menos respeitasse a Física, a ANVISA não permitiria bebidas ricas em energia, com zero caloria.

Não se pode ser pró ou contra a transgenia de forma generalizada. Transgênicos são um conceito e uma invenção da mente humana. As tecnologias para transferir genes, entre organismos, até podem ser olhadas estritamente pelo viés geneticista. Mas transgênicos são mais que isso; e incorporam importantes componentes de ordem simbólica, que remetem ao imaginário social.

Quanto mais mentiras são descobertas, mais o público fica receoso e refratário. Se algo contra os OGMs pode ser feito, é continuar a impor decisões sem comprovações científicas suficientes; a criar MPs violando a Constituição e contrariando decisões judiciais; a ocultar alíneas liberando transgênicos em MPs sobre programas habitacionais, com a presidência da república contrabandeando leis como antes outros contrabandearam sementes piratas. A favor dos transgênicos o melhor é falar, convincentemente, a verdade.

 

*Engº de alimentos e professor da Fac. de Farmácia da UFRJ (www.ufrj.br/consumo)