O Globo, 20/10/1990

OPINIÃO: Aditivos, mentiras & video-tape


*LUIZ EDUARDO CARVALHO

Tecnologistas de alimentos não são piores nem melhores que economistas. Estes não se entendem, desorientam o público, desorganizam a economia e bagunçam a vida de todos - empresários e consumidores - enquanto a miséria permanece e a inflação sempre retorna.

Durante muito tempo as contradições da alimentação brasileira ficaram no conflito "gordos versus famintos". E foi nesse contexto que surgiu a frase "no Brasil todo mundo passa fome; uns porque não têm o que comer; outros porque fazem regime".

Agora se inaugura um novo cenário. Com sua antena sensível, Fernando Gabeira lançou uma nova frase, que com clareza e ironia bem retrata a nova e mais complexa contradição: "Estranho país é o Brasil, onde enquanto uns morrem porque não têm o que comer, outros morrem porque comeram alguma coisa".

Se a economia, como ciência, está hoje desacreditada, também a ciência e a tecnologia alimentares, representadas materialmente pelos alimentos industrializados, caem cada dia mais e mais no conceito público. E isso é equivocado, injusto e, ainda pior, perigoso para os próprios consumidores e sua saúde.

Duas coisas devem estar sempre bem claras. Primeiro, a ciência e a tecnologia de alimentos, representando a soma de conhecimentos da humanidade sobre como produzir, transformar e conservar alimentos, são uma conquista da civilização, e sem o contínuo desenvolvimento e aplicação desse saber, o homem não teria chegado até aqui. Teria ficado morto pelo caminho, de fome ou intoxicado.

Segundo, não é verdade que tudo seja ou esteja contaminado. Aceitar essa (equivocada) hipótese conduziria à perigosa e desmobilizadora conduta de que "já que tudo está contaminado, já que tudo engorda mesmo, ora, vou mais é comer de tudo". A quem interessa isso?

A tecnologia de alimentos é uma conquista da humanidade e cabe a todos nós, consumidores, empresários e Governo, zelar para que esses conhecimentos sejam controladamente aplicados para o bem comum. Mais que a todos, cabe aos cientistas de alimentos, representados institucionalmente pela sua entidade científica, defender e orientar o uso da ciência alimentar.

Esta tem sido a doutrina da SBCTA - Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, entidade que congrega os especialistas do setor. De um lado, ela pressiona e orienta as autoridades públicas, para que os conhecimentos científicos sejam utilizados em defesa da produção de mais alimentos, de alimentos mais saudáveis, nutritivos e saborosos e de alimentos a preços mais acessíveis. De outro lado, inicia um programa de informação pública sobre ciência de alimentos, incluindo realização de conferências abertas a consumidores, produção de material gráfico com informações para a população e elaboração de relatórios e notas para jornalistas científicos. Enfim, o consumidor precisa participar mais; a imprensa tem um papel determinante a exercer; e, para isso, ambos precisam estar bem informados.

O programa de informação pública, em ciência de alimentos, está sendo desenvolvido com a UFRJ, através da Faculdade de Farmácia. O programa inclui exposições públicas de produtos e rótulos de alimentos, bem como a apresentação de alguns experimentos de laboratórios que, simples e rápidos, propiciarão transparência tecnológica aos consumidores. Material gráfico também está sendo distribuído gratuitamente. Nesta primeira fase, o enfoque está na questão "aditivos alimentares", e está sendo distribuída uma tabela com os códigos de todos os aditivos, explicando suas finalidades e apresentando alguns exemplos como ilustração. Em seguida, virão informações sobre os "dietéticos" e sobre o uso abusivo do termo "natural " em rótulos.

Muitos se surpreenderão em saber que: enlatados não contêm aditivos químicos; lanjal é inteiramente natural; e leite longa-vida não contém qualquer tipo de conservante, químico ou não. Essas são as verdades. Mas aditivos e algumas mentiras, como um video-tape, estarão esperando por sua atenção, nos supermercados, nos rótulos e na propaganda da televisão. Leia os rótulos. Eles não são papel de embrulho.

 

* Luiz Eduardo Carvalho é professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ e Presidente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos.