O Globo, 17/Out/1991.

Saúde Pública e Desgoverno

Luiz Eduardo Carvalho

Balas e chicletes com cocaína, esse filme pode parecer inédito, primeira exibição, mas já foi visto muitas e muitas vezes, você vai logo lembrar, ou basta repassar duas ou três cenas, olha só: bromato no pão, formol no leite, botulismo no patê, césio no leite e na carne, dióxido de enxofre no suco, coliformes fecais na água mineral, estafilococos no macarrão e cromo na gelatina, um rol de escândalos e temores que se sucedem e sempre terminam sem culpados, sem desculpas, sem explicação.

Enfim, havia ou não havia contaminação por cromo nas gelatinas? A gelatina de hoje é diferente daquela? O que realmente aconteceu? Ocorreram mudanças que agora garantem um produto sem risco à saúde.

Depois de frequentar, por semanas, os jornais e a televisão, depois de suspensa a venda e abalado o consumo, o caso sumiu do noticiário e caiu no esquecimento. Ninguém para esclarecer que tudo não passou de um equívoco e que o Governo indenizou as empresas prejudicadas; ou para informar que realmente houve fraude; que os culpados foram pu-nidos e que medidas preventivas foram adotadas para que a contaminação não se repita.

Cromo, bromato, césio, formol, enxofre, coliformes, sucos, leite, gelatinas... e as balas com cocaína (ou não) em tudo são um caso com o mesmo destino: nunca saberemos o que há, o que houve, o que haverá e, qualquer dia desses, estaremos na porta do cinema, para ver um filme novo e comprar, alienada e desprotegidamente, as velhas balinhas, ignorando que o contaminante pode ser uma dessas substâncias tóxicas que matam e não exatamente uma generosa dose de um caro e sofisticado entorpecente.

Toda essa confusão se deve, principalmente, à inexistência de um sistema moderno e eficaz de vigilância sanitária no Ministério da Saúde e, embora até exista um ministro ocupado em negociais custo de metragem para construção de CIACS, parece inexistir esse próprio Ministério...

Esta afirmativa pode ser confundida com radicalismo, leviandade, proselitismo ou opor-tunismo, neste momento em que denúncias fáceis brotam a todo instante contra o Go-verno e, em especial, mas lamentavelmente, contra os vulgares organismos de alimenta-ção e nutrição. Também por isso observemos e valorizemos os aspectos técnicos da questão. E comecemos por ler e interpretar o que diz o rótulo das tais (em)balinhas.

O produto tem um nome e o nome, pasmem, é frutas! Sobrepondo-se Á FIGURA DE ALGUMAS DRÁGEAS COLORIDAS, IMAGENS DESTACADAS DE MAÇÃ, PÊRA, CEREJA, MORANGO, LIMÃO E LARANJA. Mas qual dessas frutas propicia a drágea azul que está no rótulo? Não só por isso vale ler o rótulo lateral, onde letras microscópicas, menores ainda que os tais furinhos encontrados pela Polícia, (des)infor-mam que temos ali confeitos com aromas de laranja, limão, morando e pêra (o que fazem então cerejas e maçã no rótulo?). E, embaralhando palavras, ingredientes, endereços, aditivos, número de CGC e registros no cartório construtor de CIACS, dificultando e desestimulando qualquer tentativa de leitura, declara, enfim, conter: açúcar cristal, açúcar refinado, xarope de glucose, gordura vegetal hidrogenada, gelatina, amido de milho, aromas naturais de laranja e limão, aromas artificiais de morango e pêra, acidulante H.II e corantes artificiais.

Na outra lateral, os ingredientes estão listados em inglês. Comparemos: em vez de códigos como H.II, que ninguém sabe o que é, o fabricante informa utilizar acidulante "ácido cítrico" e os corantes yellow 5 e yellow 6. Surge também um ingrediente que não consta na lista em português: a "goma arábica". E, para concluir, os ingredientes que devem sempre estar listados em ordem decrescente de teor adicionado surgem, em inglês, noutra ordenação. Tudo muito estranho e, sem dúvida, ilegal.

Se rótulo, contudo, é apenas tão ridículo e cretino quanto quase todos os demais aprovados pelo Ministério da Saúde. A grande questão volta-se para o conteúdo dessas caixinhas e, assim, pergunta-se: algum dia o setor Saúde se preocupou em inspecionar esta ou qualquer outra bala ou chiclete? Os aditivos utilizados são apenas os que estão listados no rótulo? Foram usados dentro dos limites toleráveis? Será que tais aditivos respeitam o grau de pureza necessário para consumo humano?

A resposta é certamente não. Inclusive porque, mesmo agora, no auge dessa polêmica, quem está analisando as balas é, pasmemo-nos, o IML. E retorna então a pergunta: onde está o Ministério da Saúde e seus laboratórios? Onde está o Ministério e os especialistas que deveria abrigar? Será que o PC não tem nenhum irmão toxicologista?

Contribuintes, somos consumidores desassistidos por ações básicas de saúde pública. Fabricantes adicionam o que querem e quanto querem. E um ministério não terá capacidade e vontade de analisar contaminantes em alimentos quando sequer avaliar rótulos que, como vimos, são visivelmente mentirosos.

Na porta das escolas, pipoqueiros irresponsabilizáveis continuam adicionando corantes, provavelmente tóxicos, aos refrescos e algodão-doce. Como é o tipo de tóxico que não interessa à Polícia, nunca se tornará escândalo nacional. E mesmo que venha a se tornar, tanto faz, iria apenas juntar-se aos caos de cromo na gelatina, do enxofre no suco e da cocaína em balas, fatos nunca esclarecidos, apenas mais um dentre tantos sintomas de desgoverno que vivemos.

Luiz Eduardo Carvalho é professor
da Faculdade de Farmácia da UFRJ