Revista Veja, 06/05/1987

PONTO DE VISTA: Muito Aditivo e Pouca Ação


*LUIZ EDUARDO CARVALHO


Hormônio na carne, radioatividade no leite, cromo na gelatina e dióxido de enxofre nos sucos. Quatro escândalos alimentares nos jornais, somando-se a muitos outros, mais antigos, que terminaram em samba: bromato no pão, coliformes no leite, pesticidas no tomate e botulismo no patê. Qual é a receita contra tantas pragas? Há quem acredite que a solução é sempre trocar o ministro - afinal um ministro da Saúde mandou tomar os sucos e outro, diante das denúncias dos jornais de que estaria tudo contaminado, sugeriu que jornalistas e povo comessem os próprios jornais. Mas trocar de ministro não faria, por si só, desaparecer o cromo, o enxofre, o césio ou o hormônio em excesso dos alimentos. A grande troca que se impõe não é de nomes, mas de atitudes. O governo não tem uma política alimentar e nutricional, não tem instituições capacitadas e confiáveis para implementar essa política e carece, sobretudo, da vontade de ter qualquer dessas condições. O governo insiste em entender, na prática, política nutricional como distribuição de comida em véspera de eleição.

Ao contrapor, demagogicamente, a prioridade para os pobres e desnutridos à definição de uma política alimentar, o governo ignora que existem pelo menos 30 milhões de consumidores de classe média necessitando de uma política voltada para uma alimentação mais equilibrada e saudável. E o governo acaba não vendo, com esse disfarce, que são os mais pobres que estão mais sujeitos aos aditivos e aos contaminantes. Enquanto não adota uma postura mais consistente no trato da qualidade dos alimentos, o Ministério da Saúde consegue apenas aumentar, progressivamente, sua própria incapacidade técnica e estrutural e a confusão na cabeça do consumidor. Faz sete anos que a câmara técnica de alimentos, encarregada de fazer as normas para o controle, não se reúne nem é substituída por outro organismo atuante. O ministério não conta com um quadro de profissionais concursados, com progressão na carreira técnica e funcional e com permanente aperfeiçoamento e atualização técnico-científica. Os encarregados de zelar pela qualidade dos nossos alimentos não têm estabilidade no emprego - imprescindível para resistir a pressões políticas e empresariais - nem sequer salários dignos, obrigatórios para um exercício digno e honesto da inspeção sanitária.

Cada vez que muda o ministro ou surge uma crise, a equipe é trocada - e não apenas os chefes de divisão, porque quase ninguém é do quadro permanente. Os que saem levam o que aprenderam errando, os que entram começam do zero outra vez. Sem diretrizes de ação mais perenes, a fiscalização dos produtos alimentares será, sempre, uma sucessão de fugazes escândalos que não chegam a compor um quadro coerente. Não é preciso ter um laboratório em casa para chegar a tal conclusão. Um consumidor esclarecido pode identificar facilmente dezenas de alimentos com problemas capazes de fomentar polêmicas tão amplas e graves como as do suco e da gelatina, e nunca fica sabendo ao certo se está sendo logrado ou não.

O pesticida adicionado ao sal que se utiliza para salgar pescado a fim de impedir o crescimento de larvas de mosca faz mal? Há refrescos clandestinos feitos com água não-potável, sem a menor higiene, que utilizam com a maior liberalidade aditivos químicos suspeitos e são vendidos abertamente, sem o menor controle, nas praias e portas de escola. Por que não se faz nada? Os exemplos desse bombardeio de desinformação não se esgotam aí. O que pensar de ovos de páscoa recomendados para regimes de emagrecer? Tampouco parecem confiáveis os macarrões que se apresentam como vitaminados e imitam com coloridos artificiais a tonalidade que a presença do ovo costuma dar aos alimentos. Produtos com ciclamato e sacarina não informam claramente os limites máximos de consumo diário. Adoçantes artificiais se fazem passar por extraídos das melhores frutas, um escândalo que não chega a ser raro nas gavetas do Ministério da Saúde nem nas prateleiras dos supermercados.

Será que os escândalos são tudo o que conseguimos engolir em nossos cardápios diários? Esse tipo de ceticismo resignado é um tempero perigoso quando se trata de transformar um panorama desfavorável. Há problemas e abusos, é verdade. Mas é também verdade que a ciência e tecnologia alimentar, desenvolvidas para melhorar a qualidade de vida do homem - e não para enganá-lo -, têm feito muito para prolongar a conservação e aprimorar a qualidade nutricional, sensorial e sanitária dos alimentos. Basta que o governo coloque essas tecnologias a serviço do homem e contra a burocracia para que as coisas comecem a andar. As indústrias que adotam boas tecnologias e que trabalham idoneamente não são exceções - felizmente. Considerar que esteja tudo contaminado e divulgar esta idéia é, antes de tudo, um desserviço ao consumidor. Primeiro porque não é verdade. E, além disso, o induz a um derrotismo contraproducente. "Se tudo está contaminado, não existe outra saída senão continuar consumindo de tudo", difunde o senso comum. Com isso, desmobilizam-se os movimentos dos consumidores, cujo maior poder, por enquanto, é o poder de compra. Optar pelo melhor produto influencia o mercado a melhorar a qualidade. Por isso é preciso que cada denúncia seja plenamente esclarecida e tenha seus limites muito bem marcados pelas autoridades - pois o mar de escândalos sugere que está tudo estragado nas prateleiras quando, na verdade, o que é necessário é dar condições ao consumidor para distinguir entre o bom e o ruim.

*Luiz Eduardo Carvalho é presidente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, no Rio de Janeiro.