"Construção
de representações em cosméticos:
anúncios
de ingredientes bromatológicos em rótulos de sabonetes"
-XXV JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
e XV JORNADA DE INICIAÇÃO ARTÍSTICA E CULTURAL -
Área de conhecimento: Saúde Pública
Autores: Nicolich, R.
Orientador: Carvalho, L.E.
Data: Novembro/2003
Tipo de apresentação: Oral
Resumo: Diversos sabonetes anunciam, em peças publicitárias, mas também nos rótulos, a presença de ingredientes alimentares ou nutrientes. Com o objetivo de quantificar e analisar tais ocorrências e suas implicações, realizou-se pesquisa, de janeiro a junho de 2003, em 3 hipermercados do Rio de Janeiro, observando-se a existência de 24 marcas de sabonetes que, variando cores e aromas, totalizavam 110 diferentes rótulos.
Identificaram-se anúncios de ingredientes bromatológicos no rótulo frontal de 26 sabonetes (24%): 15 rótulos informavam a presença de ingredientes alimentares (frutas, em 8 desses 15 rótulos; aveia, em 2/15; mel, em 1/15; própolis, em 1/15; leite, em 1/15; chá, em 1/15; e erva-doce, em 1/15), 6 rótulos informavam a presença de nutrientes (vitamina E, em 1 dos 6 rótulos; vitamina PP, em 1/6; e água mineral ou pura, em 4/6), 2 rótulos informavam a presença de combinação de ingredientes bromatológicos (aveia e mel; e aveia e ômega 3 e 6), 2 rótulos informavam a presença de nutrientes de origem alimentar (proteínas do trigo; e nutrientes do leite) e 1 rótulo informava a presença de substância cosmética de origem alimentar (hidratantes do leite). Considerando a forma de destaque dessas inserções, verificou-se que 13 rótulos (50%) apresentavam ilustração do alimento anunciado e 11 rótulos (42%) apresentavam tais anúncios com pelo menos metade do tamanho da maior palavra ali presente.
Em vez de substâncias químicas, de nomes indecifráveis mesmo para profissionais de nível superior, o fabricante desvia a atenção para o universo imaginariamente mais seguro, porque mais familiar e natural, dos "alimentos". Mais que isso, não de alimentos comuns, mas dos alimentos apregoados como detentores de funcionalidades saudáveis. E tais funcionalidades, muito anunciadas na mídia, mas cientificamente não demonstradas, se transportam então da comida para os cosméticos, propiciando a estes uma imagem de "produto caseiro", isento de "químicas" e, portanto, frente à percepção dos consumidores, mais seguros e saudáveis.
Indo mais além dessa construção do imaginário sobre os ingredientes, os sabonetes tentam tomar posse também de aspectos que informam a chamada "cultura da saúde", onde o ato rotineiro de simplesmente banhar-se passa, na contemporaneidade, de um procedimento de ordem higiênica, de fazer limpeza de sujidades corporais, para um ato imaginariamente terapêutico ou, no mínimo, preventivo em defesa da boa saúde.
Desses dados e análises, conclui-se que esses sabonetes, que anunciam a presença de ingredientes alimentares ou nutrientes, podem induzir os consumidores a erro quanto à composição e/ou a finalidade dos produtos. Como a legislação brasileira prevê e proíbe essa prática, torna-se necessário que a rotulagem de tais sabonetes seja reavaliada pelas autoridades de vigilância sanitária e proteção da economia popular.